domingo, 27 de julho de 2008

CONSPECTOS SOBRE A DIALÉTICA DO ÚTIL E DO INÚTIL

Francisco Máuri de Carvalho Freitas

Grupo de Estudos e Pesquisas Judô: Filosofia, História e Educação / UFES

Resumo

O presente trabalho pretende resgatar a polêmica sobre qual é o fator contemporâneo da humanização plena da classe operária e dos trabalhadores assalariados: é o útil (o necessário à conservação da vida, no sentido biológico, reino das necessidades onde o homem sobrevive como animal – dormir, comer, reproduzir-se etc.) ou o inútil, tudo o que é considerado desnecessário (mas necessário à constituição do reino da liberdade). Segundo determinado raciocínio filosófico, a vida propriamente humana só começa a partir do momento em que o homem começa a fazer coisas inúteis. Destarte, temos de um lado, o trabalho (o reino da utilidade), e, do outro, os lazeres (o reino das inutilidades) onde os homens e mulheres fazem coisas consideradas inúteis. Ora, se é fora do trabalho, nos lazeres, que os homens e mulheres cantam, dançam, jogam e conversam sobre inutilidades ou futilidades é porque, na verdade, são as coisas inúteis ou fúteis que dão sentido a vida. Por este ângulo de análise, o fulcro da humanização não está no útil, mas no inútil ou no útil apenas à medida que torna possível o inútil. O essencial, para o ser humano não é, portanto, o útil mas o inútil, não é indispensável, mas o supérfluo. Seguindo essa linha filosófica, é preciso incitar os operários e trabalhadores assalariados, afirmando-se na construção da sua liberdade, a negar aquilo que os nega: o trabalho alienado, elemento fulcral do modo de produção capitalista. O trabalho sob o mando do capital é carregado de negatividade, sinônimo não de transformação da natureza, muito menos transformação do trabalhador, mas de salário, baixo salário, emprego remunerado, temporário, desemprego. Atividade humana contraditória o trabalho ao mesmo tempo em que dignifica, pode também danificar homem trabalhador. Enfim, por mais paradoxal que possa parecer, nas cidades do capital o operário não se realiza no trabalho, apenas se animaliza, enquanto nos lazeres, comer, beber, dormir, reproduzir, ornar-se, mandriar etc., é que se sente humano. Pois como sentenciou Marx: reino da liberdade começa onde o trabalho deixa de ser determinado por necessidade e por utilidade exteriormente imposta. A produção material situar-se-á sempre no reino da necessidade. Só além dele começa o real desenvolvimento das forças humanas como um fim em si mesmo, o reino genuíno da liberdade, que só pode florescer tendo por base o reino da necessidade. E a condição fundamental desse desenvolvimento humano é a redução da jornada de trabalho.

Palavras chave: Classe Operária, Trabalho, Lazeres, Útil, Inútil


Intróito

Carregado de negatividade o trabalho (ato de trabalhar) é possuidor de uma dupla dimensão: castigo, pelo fato de o homem ter rompido com o paraíso através do pecado original; e redenção, porque pelo trabalho, entendido como prática social revolucionária, o homem trabalhador pode alcançar o reino da dignidade terrena, isto é, migrar do reino da necessidade para o reino da liberdade.

Se em sua desrazão os intelectuais continuam afirmando que o trabalho no capitalismo dignifica, têm razão os operários submetidos a doze horas de degradante trabalho quando dizem: o trabalho na cidade do capital danifica, mutila, mata.

O trabalho não é para o homem somente uma necessidade inevitável, mas liberdade em relação à natureza. É verdade que se não pode continuar afirmando o trabalho como demiurgo da humanização plena do trabalhador, é fato que durante a feitura (e exposição) deste estudo centenas de trabalhadores e trabalhadoras “podem estar sendo soterradas, levando choques de alta voltagem, caindo de andaimes, sentindo dores intensas nos braços e ombros ou, literalmente, morrendo de cansaço num canavial”.[1]

Em Marx[2], o trabalho aparece como enfrentamento do homem, segundo sua organização corporal, com a natureza e progressivo conhecimento sobre ela. O trabalho é um processo dialético entre esses dois elementos, onde o primeiro se realiza e controla o segundo mediante sua própria ação, sendo o controle da ação um mecanismo condicionante das forças psíquicas e físicas do primeiro, e o segundo exerce uma ação contrária incrementando o processo humanizador.

O homem põe em ação as forças naturais que formam sua organização corporal, braços, mãos e cérebro, para, deste modo, assimilar como forma útil para sua própria vida os mais diversos materiais da natureza. Nada indica melhor o nível e a fidelidade do pensamento de Marx à realidade objetiva que o fato dele haver baseado toda a sua formulação sobre o trabalho e procriação como duas modalidades do mesmo processo fértil de vida.

Se o trabalho é a reprodução da vida do trabalhador, por mais paradoxal que possa parecer, nas sociedades capitalistas o homem não se realiza no trabalho, porque nas relações humanas – o trabalho – ele se animaliza, enquanto que nas relações animais – comer, beber, dormir, reproduzir, ornar-se – é que ele se sente humano.

O trabalho dignifica ou danifica? Uma difícil escolha na cidade do capital, mas nesta cidade os trabalhadores(as) são submetidos(as) às mais diversas e precárias condições, por exemplo, cortar 10 toneladas de cana por dia, desferindo mais ou menos 9700 golpes de goiva (facão), muitas vezes, a provocar acidentes como cortes profundos nos dedos, lesões por esforços repetidos, graves e irreparáveis problemas posturais, os corpos desidratados que, grosso modo, não dispõem de água fresca no eito (um fato ilegal) e quase sempre impedidos de descansar à medida que essa condição seria um entrave à produtividade do processo canavieiro.[3]

Cegos e mudos aos clamores dos cortadores(as) de cana, parolam os estudiosos sobre a centralidade do trabalho como fonte de humanização desses trabalhadores(as), esquecendo as moradias nos canteiros de obras e nos canaviais deste país, que mais se assemelham a prisões fétidas, superlotadas, desumanas. Esquecem ainda que alguns desses homens e mulheres iniciam o seu turno de trabalho lá pelas 05:00 da manhã, sem hora certa para encerrar a jornada de trabalho. Sua remuneração não chega sequer a um salário mínimo por mês.[4]

Não é inteligente ignorar que o trabalho na cidade do capital está subordinado ao propósito de reproduzir e expandir o domínio material da burguesia, enquanto a força de trabalho se degrada e morre precocemente.

Salvo melhor juízo, no capitalismo o trabalho não pago é única fonte da desumanização, isto porque, o homem trabalhador não é senhor de sua própria força de trabalho. O processo de plena humanização deve incorporar não o trabalho apenas, mas o maior tempo possível do dia dedicado ao “mandriar” e ao rega-bofe como toque final do livre desenvolvimento de todos.

O trabalho é fundamental na formação humana ou no processo de humanização, pois de forma decisiva a vida coletiva e individual nas modernas sociedades capitalistas se organiza em torno do trabalho. Contudo, seguindo a linha de raciocínio adotada por Lafargue[5] e Lefébvre[6], que não difere da linha de Marx, – preservadas as diferenças entre eles –, a sociedade do futuro deverá se organizar não mais em torno da centralidade do trabalho, mas em função da centralidade da preguiça e do supérfluo.

Nessa sociedade homens e mulheres adultos trabalharão de três a quatro horas por dia, dedicando-se no restante do dia ao exercício das práticas esportivas, das artes, da música, do canto, enfim, da “mandriagem” e do rega-bofe.

Os críticos: de quem, contra quem?

Os intelectuais “esquerdistas”, com raras exceções, continuam discutindo a centralidade do trabalho como fulcro da humanização, esquecendo que é o supérfluo e o inútil o instrumento histórico necessário ao homem trabalhador para romper sua primitiva e desumana casca. Se o trabalho cria valores de uso, úteis e indispensáveis à existência do homem, não se deve esquecer haver no modo de produção capitalista uma insolúvel contradição entre capital e trabalho, onde o capital é:

Trabalho morto que como um vampiro se reanima sugando trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte se torna. O tempo em que o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome em seu proveito o tempo que tem disponível, furta o capitalista.[7]

Se o operário dedicar parte da sua jornada de trabalho ao exercício do vadiar ou da prática do pára-quedismo, dos esportes de combate, da música etc., os sórdidos economistas burgueses que o seguem com seus olhos inquietos, afirmarão que está a roubar o capitalista.

Emudecido pelo processo produtivo de cretinização – do qual alguns conseguem “escapar” – é possível reportar que pondo de lado o desgaste natural da idade[8], o trabalhador precisa ter no dia seguinte, para trabalhar bem, níveis de força, saúde e disposição iguais as do dia anterior. Entretanto, o capitalista está continuamente a apregoar-lhe o evangelho da parcimônia e da abstinência, enquanto o trabalhador precisa converter em trabalho uma quantidade de força compatível com a duração normal da atividade profissional e com o seu desenvolvimento sadio.

Mas, quando o capitalista prolonga de forma desmesurada a jornada de trabalho (em busca da mais-valia absoluta), o trabalhador gasta de sua força de trabalho uma quantidade maior do que a que pode recuperar em até cinco dias. Neste sentido, o que o capitalista ganha em tempo, o trabalhador perde em subsistência.[9]

O intelectual das ciências sociais, com pouca ou quase nenhuma familiaridade com as ciências biológicas, faz alusão à recuperação do trabalhador relacionada-a apenas com o descanso ou com a redução do tempo de trabalho excedente, ou ambas, ele ainda não compreendeu que trabalhadores, por exemplo, cortadores de cana quando simultaneamente submetidos ao trabalho extenuante e com uma ingestão calórica aquém das suas necessidades diárias, podem ter seus níveis de glicogênio hepático em menor monta que o necessário à recuperação da força de trabalho em níveis mais altos e à realização normal de sua jornada de trabalho.

Em face disto, não compreende esse intelectual que o trabalhador em questão permanece como se portasse uma espécie de cansaço crônico natural. Em alguns Estados do Nordeste brasileiro, algo similar a esse fenômeno orgânico é conhecido como preguiça tropical – uma condição dos trabalhadores dos canaviais nordestinos apontada por Josué de Castro nos idos dos anos 40 do século XX.

Para o trabalhador das cidades e do campo, o capitalista e o latifundiário podem até ser bons cidadãos e, quiçá, membros da sociedade protetora dos animais, podem até estar aureolados com um odor de santidade, mas o que eles representam para ele “é algo que não possui entranhas”.[10]

A análise cuidadosa revela ser o trabalhador nesta sociedade apenas força de trabalho para incrementar o capital em seu impulso cego e desmedido, em sua voracidade por trabalho excedente, violando todos os limites físicos e morais do trabalhador. É evidente que o capitalista usurpa o tempo indispensável à consecução das necessidades metabólicas do trabalhador. Contudo, “o capital não se preocupa com a duração da vida da força de trabalho. Interessa-lhe exclusivamente o máximo de força de trabalho que poderá ser posta em atividade”.[11]

Na cidade do capital, os filhos e as filhas dos trabalhadores são transformados precocemente em “simples máquinas de fabricar mais-valia, e mantido na ignorância, sua ignorância é bem diversa da ignorância natural em que o espírito, embora sem cultura, não perde sua capacidade de desenvolvimento, sua fertilidade natural”.[12]

O trabalho na fábrica além de suprimir o variado jogo do sistema mio-ósteo-ligamentar, confisca a atividade livre do trabalhador. Ontem como hoje só há tempo livre para a classe ociosa, pois para a classe operária sua vida inteira é transformada em tempo de trabalho.[13]

Vamos ver sobre a insistente defesa da centralidade do trabalho como meio de humanização dos trabalhadores, o que será que diz Marx:

O operário, que, durante doze horas, tece, fia, perfura, torneia, constrói, cava, talha a pedra e a transporta, etc., considerará essas doze horas de tecelagem, de fiação, de trabalho no torno, ou de pedreiro, cavador ou entalhador, como manifestação de sua vida, como sua vida? Muito pelo contrário. Para ele, quando terminam essas atividades é que começa a sua vida, à mesa, no boteco, na cama. Essas doze horas não têm de modo algum para ele o sentido de tecer, de fiar, de perfurar, etc. mas representam unicamente o meio de ganhar o dinheiro que lhe permitirá sentar-se à mesa, no boteco, deitar-se na cama.[14]

Até segunda ordem, o boteco, a bodega, o bar é o local

onde todos iguais se reúnem contando mentiras para poder suportar, aí!, são pais de santo, paus de arara, são passistas, são flagelados, são pingentes (comunistas), palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados, cantando, dançando à sombra das alegorias dos faraós embalsamados....[15]

É no botequim onde os iguais se reúnem e proclamam: se, por um lado, a moderna divisão social do trabalho aumenta a capacidade produtiva da força de trabalho, a riqueza e o requinte da sociedade, por outro lado, nos empobrece a todos, nos transforma em máquinas.[16] Os interesses do capitalista são antagônicos aos interesses dos trabalhadores[17], de mais a mais, ele é uma pedra no caminho do processo de humanização da classe operária.

Talvez por isto, Marx tenha deixado lavrado que

O trabalho em si, não só nas presentes condições, mas universalmente, na medida em que a sua finalidade se resume ao aumento da riqueza, é pernicioso e deletério. Na situação progressiva da sociedade, no entanto, o declínio e o empobrecimento do trabalhador é o produto do seu próprio trabalho e da riqueza por ele produzida. Por conseguinte, a miséria emerge espontaneamente da essência do trabalho hodierno. A mais opulenta condição da sociedade é uma situação de miséria estacionária para os trabalhadores.[18]

Nos “Manuscritos econômicos – filosóficos, no segundo manuscrito, Marx reporta:

O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. A realização do trabalho surge de tal modo como desrealização que o trabalhador se invalida até à morte pela fome.[19]

E mais ainda:

O trabalho produz maravilhas para os ricos, mas produz a privação para o trabalhador. Produz palácios, mas casebres para o trabalhador. Produz beleza, mas deformidades para o trabalhador.[Substituído por máquinas] lança uma parte dos trabalhadores para um trabalho bárbaro e transforma os outros em máquinas. Produz inteligência, mas também produz estupidez e o cretinismo para os trabalhadores.[20]

Marx tinha razão? Marx tem razão! Os dados reproduzidos abaixo[21], explicitam uma realidade que se agiganta diante dos nossos olhos. Portanto, o Mouro estava e ainda está eivado de razão. O capitalismo produz cada vez mais pobres, mais pobres.

No primeiro livro d’O Capital Marx formulou a famosa “lei geral e absoluta da acumulação capitalista”, na qual a acumulação de miséria aparece diretamente entrelaçada com a acumulação de capital, ou seja, a acumulação de riqueza em um pólo é, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, escravidão, ignorância, embrutecimento, degradação moral e morte precoce no pólo oposto.

A fome continua matando mais de quarenta mil pessoas por dia; milhões de crianças menores de cinco anos morrem por desnutrição ou por enfermidades devido ao seu baixo poder imunológico, ou seja, a cada ano morrem nas cidades do mundo inteiro algo em torno de dez milhões de pessoas em decorrência de epidemias pela contaminação da água e carência de rede de esgotos.

Suposição ou realidade?

O que verdadeiramente com a atual reestruturação produtiva do capital?

O que realmente mudou com as novidadeiras relações de trabalho sob as quais o operário assalariado continua assalariado, e a sua sorte a depender do capital?[22]

Se os capitalistas continuam lutando entre si para ver quem expulsa a maior quantidade de “soldados da indústria”[23], será porque pouca coisa mudou no mundo do trabalho à medida que nas modernas sociedades capitalistas ainda há uma

floresta de braços que se levanta para pedir trabalho, se torna cada vez mais densa, e que os próprios braços que a formam se tornam cada vez mais magros. Senhor distinto e bárbaro ao mesmo tempo, o capital arrasta consigo para o túmulo os cadáveres de seus escravos, hecatombes inteiras de operários que sucumbem nas crises.[24]

E mais ainda:

O reino da liberdade começa onde o trabalho deixa de ser determinado por necessidade e por utilidade exteriormente imposta; (...) [a produção material] situar-se-á sempre no reino da necessidade. Além dele começa o desenvolvimento das forças humanas como um fim em si mesmo, o reino genuíno da liberdade, o qual só pode florescer tendo por base o reino da necessidade. E a condição fundamental desse desenvolvimento humano é a redução da jornada de trabalho.[25]

No “Capítulo VI Inédito de O capital” há o seguinte comentário quanto à subsunção do trabalho ao capital:

Quando a relação da hegemonia e da subordinação substitui a escravidão, a servidão, a vassalagem, etc., as formas patriarcais de subordinação, opera-se apenas uma mudança na forma. A forma torna-se mais livre porque é agora de natureza meramente material, formalmente voluntária, puramente econômica. Se a humanidade não fosse forçada a trabalhar os homens trabalhariam apenas para si próprios; e se tiverem poucas necessidades, haverá pouco trabalho.[26]

Nesta sociedade, os trabalhadores escravizados trabalham para atender às necessidades dos banqueiros, latifundiários e capitalistas. Os trabalhadores são obrigados a trabalhar para sustentar os grupos parasitários que vivem as expensas do suor alheio. E se os homens e as mulheres trabalhadores encontram-se escravizados, então o processo humanizador pressupõe a razia do elemento escravizador ou da relação capital x trabalho.

Ao útil o inútil

Na contramão do trabalho enquanto essência e razão de ser da humanidade, o trabalho como o estritamente necessário à conservação da vida biológica, portanto, útil por ser necessário à sua sobrevivência enquanto animal de carga, o restante ou o tudo mais produzido pelo trabalhador é considerado pela burguesia como desnecessário e inútil[27] ao desenvolvimento não apenas da força de trabalho, mas à irrupção da cidadania.

Ora, se é fato que

a vida propriamente humana começa a partir do momento em que o homem atendeu às suas necessidades meramente animais. E, se só é útil o que atende a essas necessidades, a vida propriamente humana só começa a partir do momento em que o homem começa a fazer coisas inúteis.[28]

É fora do trabalho que os homens cantam, dançam, jogam e conversam sobre inutilidades ou futilidades, então, só as coisas inúteis ou fúteis dão sentido a vida. Por este outro ângulo de análise, o fulcro da humanização não está no útil, mas no inútil ou o útil apenas na medida em que torna possível o inútil. O essencial, para o ser humano não é, portanto, o útil mas o inútil, não é o necessário, mas o contingente, não é o indispensável, mas o supérfluo.

Aos olhos da burguesia, por exemplo, a filosofia é a mais inútil das inutilidades para os trabalhadores das cidades e do campo que devem permanecer ignorantes e alienados, à medida que apenas a filosofia (o inútil) pode arrancá-los da escuridão em que vivem. Se a filosofia foi a “responsável” pelas revoluções francesa, bolchevique, chinesa e cubana, por que não poderia hoje jogar o mesmo papel exercido em outras épocas?

Para a burguesia a filosofia é inútil à classe que precisa do conhecimento revolucionário para transformar a sociedade. Todavia, apenas no dia em que a opressão e a extorsão forem erradicadas, a filosofia deixará de ser privilégio de poucos e o lazer substituirá progressivamente o trabalho cada vez menos a cargo do homem e cada vez mais a cargo da máquina, terá o homem posto, definitivamente, em marcha o processo humanizador.

Voltamos à afirmação inicial, sob o capitalismo “o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo nas suas funções animais – comer, beber e procriar, quando muito, na habitação, no adorno, etc. – enquanto nas funções humanas se vê reduzido a animal. O elemento animal torna-se humano e o humano animal”.[29]

Proselitismo e Paradoxos

Parece escapar a todos nós ser o bar o único lugar onde todos os iguais, oprimidos, excluídos e desqualificados se reúnem contando mentiras para poder suportar a perversidade das reformas reformistas praticadas por um governo demagogicamente “cego”, um parlamento irresponsavelmente “mudo” e uma esquerda oportunista que apenas “lamenta”.

As supostas “novas” relações de trabalho surgem como discurso oportunista a encobrir que:

A moral capitalista, lamentável paródia da moral cristã, fulmina com o anátema o corpo do trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao mínimo mais restrito de necessidades, suprimir suas alegrias e as suas paixões e condená-lo ao papel de máquina entregando trabalho sem trégua nem piedade.[30]

O bafo envenenado da civilização – uma estranha loucura – é o amor ao trabalho – imposto aos selvagens pelos colonizadores europeus. A paixão doentia e moribunda do trabalho tem levado os operários à exaustão. Em face disto, a intelectualidade (economistas, filósofos, intelectuais, pedagogos etc.) da esquerda claudicando entre o institucional e o não-institucional, entre a burguesia e o proletariado, em vez de reagir contra essa aberração eurocêntrica sacro santificam o trabalho.

Como disse Lafargue, o trabalho “é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda deformação (mutilações e seqüelas) orgânica”.[31] Então, por que a sacralização da ignomínia?

Lamentavelmente, o proletariado foi pervertido “pelo dogma do trabalho”, uma terrível punição de onde derivam todas as misérias individuais e sociais e sob as quais os trabalhadores são agrilhoados ao carro do capital, mais fortemente que Prometeu aos Rochedos do Cáucaso. Os séculos XIX e XX, foram séculos de dor, miséria e corrupção; séculos nos quais (i) os intelectuais se transformaram em “criados de pena da burguesia, generosamente alugados”[32] e (ii) os trabalhadores, grosso modo, não perceberam e continuam sem perceber que a duração da sua jornada de trabalho continua superior a jornada trabalhada pelos escravos das galés.

A hipotética e delirante centralidade do trabalho como fulcro da humanização plena dos trabalhadores é vista por Lafargue pela seguinte ótica:

Ó miserável aborto dos princípios revolucionários da burguesia! Ó lúgubre presente do seu deus Progresso! Os filantropos proclamam benfeitores da humanidade aqueles que, para se enriquecerem na ociosidade, dão trabalho aos pobres; mais valia semear a peste ou envenenar as fontes do que erguer uma fábrica no meio de uma povoação rústica. Introduzam o trabalho de fábrica e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida (grifamos).[33]

Lamentavelmente, não se vê mais o capitalismo, tenha a forma que tiver, como o epicentro da tormenta que se abate todos os dias sobre a classe operária e sobre os trabalhadores do mundo inteiro; não se vê esse modo de produção da existência como uma erva daninha que medra na extorsão do trabalho não-pago. Cegos, surdos e mudos aos clamores da classe trabalhadora os guardiães ideológicos do capitalismo cantarolam:

Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais; trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista.[34]

Exatamente por isto, urge recomeçar

o combate que os filósofos e os panfletários da burguesia já travaram; atacar a moral e as teorias sociais do capitalismo; demolir, nas cabeças da classe chamada à ação, os preconceitos semeados pela classe reinante; proclamar, no rosto dos hipócritas de todas as morais, que a terra deixará de ser o vale de lágrimas do trabalho.[35]

Com a apologia do triunfo da justiça, da moral, da liberdade e de outras mentiras infernais, a burguesia e seus intelectuais procuram limitar a emancipação plena da classe operária e impedir que ela forje uma lei de bronze onde é vedado a homens e mulheres trabalhar mais de três horas/dia.

Os operários e trabalhadores precisam compreender bem o funcionamento do capitalismo para um dia proclamarem a sentença lafargueana: Ó preguiça, tem piedade de nossa atávica e longa miséria! Ó preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das nossas angústias.

Para que servem as discussões intelectuais sobre a centralidade do trabalho ou sobre a centralidade do lazer, se as evidencias demonstram a precariedade econômica dos trabalhadores como “produto de uma vontade política, e não de uma fatalidade econômica identificada com a famosa mundialização”?[36]

Para além dessa suposta fatalidade econômica inerente ao capitalismo, a precariedade do trabalho e das condições de vida força os operários e trabalhadores assalariados à submissão, à aceitação da exploração e da extorsão de parte da sua jornada de trabalho. Se há “novas” relações de trabalho, não podemos olvidar que elas estão centradas na expressiva flexibilização das leis trabalhistas e no incremento da exploração da força de trabalho, fenômeno batizado por Pierre Bourdieu como “flexploração’. Essa “flexploração” evoca a atual e bem sucedida exploração capitalista

Fundada na divisão entre aqueles que, cada vez mais numerosos, não trabalham e aqueles que, cada vez menos numerosos, trabalham, mas trabalham cada vez mais”.[37] As “novas” relações de trabalho são estribadas no desemprego que destrói aqueles que atinge, suprime suas defesas e suas disposições subversivas.[38]

As modernas relações capitalistas (re)velam e (re)afirmam a existência de trabalhadores

Temporários, substitutos[39], supletivos, intermitentes, interinos na indústria, no comércio, na educação, no teatro ou no cinema, mesmo que imensas diferenças possam separá-los dos desempregados e também entre si, todos eles vivem com medo do desemprego, e, muitas vezes, sob ameaças da chantagem exercida sobre eles pelo desemprego (os itálicos são nossos).[40]

Confundindo as coisas da lógica com a lógica das coisas; os intelectuais retirados para o campo da direita condenam como arcaicas e retrógradas as reivindicações, greves, piquetes e similares e as revoltas à invocação dos direitos adquiridos ameaçados de degradação ou de destruição por medidas repressivas (provisórias e, curiosamente, eternas).

A ingenuidade é deletéria

Se não somos ingênuos, não podemos acreditar no trabalho ou no pleno emprego para todos os homens e mulheres da classe trabalhadora, como não acreditamos que o inútil, o supérfluo, as facetas sofisticadas da cultura, produzidas e acumuladas historicamente serão sob o capitalismo acessadas e incorporadas livremente por todos os homens e mulheres.

A concepção idealista do lúdico está estribada em paradigmas equivocados que isolam o fenômeno (extorsão da força de trabalho) das relações sociais de produção que o determinam, apresentando-o como faceta de uma cultura econômica e política construída para além das relações históricas estabelecidas entre os homens.

Nos Manuscritos Parisienses – terceiro manuscrito, Marx faz o seguinte apontamento sobre as necessidades humanas no capitalismo:

No interior do sistema da propriedade privada cada homem especula sobre a maneira como criar no outro uma nova necessidade para forçar a novo sacrifício. Todo produto novo constitui uma nova potencialidade de mútuo engano e roubo.[41]

Na privatização escancarada corpos humanos são prostituídos à realização das orgias do capital. Sobre isto, se manifesta um dissoluto capitalista sobre sua vítima, um operário: “Caro amigo, dar-te-ei o que precisas, mas conheces a conditio sine qua non; sabes com que tintas terás de escrever para mim tua assinatura; irei burlar-te enquanto te cause prazer”.[42]

Tudo o que dá prazer cai na malha fina do capitalismo (embora muito do que dá prazer tenha sido construído sob o capitalismo para maior deleite do próprio capitalista). O lazer, a informação, a saúde, a sexualidade etc., foram transformados em mercadorias suntuárias desejadas, cada vez mais sofisticadas e de difícil aquisição.

Se o trabalhador é transformado em mercadoria é porque, no capitalismo, o produto do trabalho não pertence a quem produz ou ao trabalhador, mas à outro homem; enquanto a atividade do trabalhador constitui um tormento para ele, paradoxalmente é fonte de gozo e de prazer para o capitalista.[43] Como já se disse, o trabalho ao produzir maravilhas e beleza para os ricos, produz no trabalhador privação e deformidades para si próprio e para sua progenitura.

É preciso desmentir "aqueles que partem de pressupostos nos quais o conceito de humano emerge da compreensão unívoca"[44], pois o homem tem de ser compreendido como produtor e produto das relações sociais de produção ou, simplesmente sem simplismo, como ser de circunstâncias e gerador de circunstâncias, ser que ao transformar a natureza, por ela é necessariamente transformado.

A rigor, não se deve esquecer que no capitalismo "a riqueza objetiva se confronta com o operário como propriedade dos possuidores de mercadoria"[45] que pouco se importam com a ausência desse operário na sua repartição e no seu usufruto, reservado para aquele está, não a alegria do usufruto do trabalho e da fruição da vida, mas a angústia do ascetismo forçado e do pauperismo coercitivo.

O desemprego – falha genética da formação social e econômica capitalista – incide imediatamente sobre o trabalhador e, pari passu, determina a perda daquilo que os filósofos chamam de sentido da vida (entendido como essência do humano) e se, por extensão, esta perda real, provoca um vácuo existencial ou um isolamento social, é porque o meio social é visto agora como hostil.

Marx relata que “o processo de trabalho subsume-se no capital (é o processo do próprio capital), e o capitalista entra nele como dirigente, como guia; para este é ao mesmo tempo, de maneira direta, um processo de exploração do trabalho alheio”.[46]

Subsumir-se significa incorporar-se a; identificar-se forçosamente com..., de modo que, o subsumido é aquele que de há muito perdeu o sentido e o significado da vida. De maneira que, neste processo, o operário deixa de ser ele mesmo e passa a ser um simulacro do patrão, resultado lógico: capitão de mato ou operário padrão. O processo de negação do operário

É, por conseguinte, a dominação da coisa sobre o homem (...) do produto sobre o produtor (...). Na produção material, no verdadeiro processo da vida social - pois é isso o processo de produção - dá-se exatamente a mesma relação que se apresenta na religião, no terreno ideológico: a conversão do sujeito em objeto e vice-versa.[47]

O motivo que incita o operário moderno a trabalhar, é muito mais violento que o que incitava o escravo: o operário moderno tem que escolher entre trabalhar no duro e morrer de fome, um escravo tem que escolher entre trabalhar e umas boas chicotadas amarrado ao pelourinho.[48] O operário moderno tem, como já se disse, no bar, no boteco - o seu lazer - momentos de distração sobre a realidade de sua humanidade negada no quotidiano da fábrica, da indústria, do latifúndio. Para continuar esta prosa, vejamos o que nos diz Marx:

A diferença entre as situações de um escravo e a de um operário submetido ao sistema monetário é de monta:... o senhor de escravos conhece demasiado bem os seus interesses para saber que não deve debilitar os seus próprios escravos regateando-lhes a alimentação; mas o senhor do homem livre dá-lhe o mínimo possível de comida, pois o dano infringido ao operário não recai exclusivamente sobre aquele, mas sobre toda a classe dos senhores.

... Se a humanidade não fosse forçada a trabalhar, os homens trabalhariam apenas para si próprios; (...) os escravos foram obrigados a trabalhar o solo que os alimentava a eles e aos homens livres desocupados... Nessa época, os homens eram obrigados porque eram escravos de outros, hoje são obrigados a trabalhar porque estão escravizados às suas necessidades.[49]

A contradição permanece

A contradição imanente à sociedade capitalista entre a socialização das forças produtivas e a apropriação privada dos meios de produção e dos produtos desse processo, no século XX e início do século XXI, exacerbou-se com a massiva automação empreendida pela indústria, bancos, empresas etc.

Os efeitos perversos da automação se manifestam claramente (i) na diminuição do contingente de força de trabalho economicamente ativa (os trabalhadores formais); (ii) no aumento incontido de um exército de trabalhadores a engrossar o que se conhece como mercado informal – o mundo dos biscates e dos produtos contrabandeados; e (iii) no incremento da exploração da força de trabalho e da extorsão da mais valia relativa e absoluta dos operários e trabalhadores que permanecem presos às indústrias e empresas privadas.

Para a classe trabalhadora não há esperança, pois “o processo capitalista de produção [em curso] não é meramente produção de mercadorias. É um processo que absorve trabalho não pago e transforma os meios de produção em meios para sugar trabalho não pago”.[50] Com efeito, uma quantidade cada vez maior de operários é liberada, afastada ou "liberta" do processo produtivo.

Esse número cada vez maior de operários afastados do processo produtivo, trás à reboque (i) o aumento do exército industrial de reserva, (ii) a redução do valor do salário real e (iii) o aumento da marginalidade, do crime organizado e da violência urbana e rural. Então, se "o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente"[51] e para criar circunstâncias humanas precisamos não apenas melhorar a sociedade como advogam os reformadores de todos os tempos, mas transformá-la depurando-a gradualmente do azinhavre burguês.

Mas se é verdade o que anunciava Lenin, “toda prática revolucionária necessita de uma teoria revolucionária”, qual teoria nos ajudará a compreender a realidade e a transformá-la? Segundo os “guardiães ideológicos” do capitalismo (travestidos de progressistas), Lenin teria exagerado pois não se trata de escolher ou optar pela melhor teoria dentre as diversas teorias - marxismo, positivismo, fenomenologia, existencialismo, etc. -, mesmo porque tal atitude só é compatível com a “postura dogmática, anticientífica e não comprometida com uma efetiva melhoria da prática educacional”.[52]

Aparentemente correta do ponto de vista acadêmico, a crítica a Lenin é absolutamente nefasta do ponto de vista político. Nefasta porque, na verdade, a diversidade, o pluralismo e/ou ecletismo é apenas discurso, na prática se trata de neutralizar o marxismo ou facilitar sua adequação e assimilação ao universo ideológico próprio ao capitalismo contemporâneo.

Por isto, para esses críticos é imperioso substituir o que escreveram Marx, Engels e Lenin por leituras difundidas pelos seus supostos interpretes.[53] Moto contínuo, consideram radical todo intelectual que contrapõe o marxismo às diversas concepções idealistas de mundo. Temos aqui uma aporia, o que se entende por radical?

Grosso modo, o radical é confundido com extremista, xiíta, fundamentalista, dogmático. Mas ser radical é apanhar as coisas e os fatos sociais pelas raízes, com outras palavras, radical é aquele que vai à raiz das coisas e dos fatos, portanto, nada menos dogmático do que aquele que procura a raiz do pensamento e das causas do próprio pensamento, como diria Marx, “a raiz do homem é o homem”.

Então, reflitamos sobre a seguinte premissa sem a qual não sairemos do exercício da “achologia” tão nefasta ao desenvolvimento do conhecimento científico e filosófico:

Só é possível compreender uma teoria quando a mesma é analisada de forma radical – só é possível defender uma teoria de forma radical e só é possível criticar uma teoria de forma radical. Caso contrário, o pensamento permanece na superfície e nas aparências. Não sendo, portanto, um pensamento que mereça o adjetivo de teórico.[54]

A ausência de radicalidade ou rigor acadêmico faz com que os apologistas das “novas relações de trabalho” sob o capitalismo e os críticos “rigorosos” de Marx, Engels e Lenin não percebam a contradição gerada pela automação em andamento na sociedade brasileira. Se por um lado, ela libera operários e trabalhadores para o mundo do lazer, do rega-bofe e do mandriar – o mundo do não-trabalho –, por outro lado, tal perspectiva desponta como inexeqüível sem a necessária e histórica (1) socialização dos meios e instrumentos de produção, hoje nas mãos dos capitalistas e latifundiários, como da produção, distribuição e do consumo; e (2) erradicação da propriedade privada.[55]

A análise concreta da realidade concreta, nos permite compreender que a permanecer o exercício da propriedade privada e a exploração / extorsão capitalista – mesmo detrás do biombo das mais sofisticadas técnicas científicas próprias, por exemplo, ao toyotismo – amplia-se o contingente do exército industrial de reserva e, pari passu lança “a maioria da população humana na miséria mais abjeta. Eis o quadro, comenta Saviani, que se descortina no limiar do terceiro milênio: superação do capitalismo ou destruição da humanidade e do planeta; socialismo ou barbárie”.[56]

Ao contrário do que afirma o senso comum dos intelectuais orgânicos da burguesia e dos oportunistas imiscuídos no meio operário, o capitalismo não generaliza o acesso ao lazer - sob ele o suposto Homo ludens do final do século XX permanece uma ficção no século XXI - mas espraia o irrefreável desemprego. A rigor, o lazer de forma incontornável torna-se cada vez mais espaço privilegiado e usado pela classe dominante, para alienar profundamente os trabalhadores e operários; aviltar, pela manipulação da subjetividade, os indivíduos esvaziando-os de qualquer conteúdo moral (é ético), mesmo porque, como sugere Marx, não há ética na miséria; e fazer com que o sentir-pensar-agir seja sempre, em conformidade, com os estereótipos “up to date”, na crista da onde ou na última moda.[57]

O que se vê é: para os nababos parasitas do trabalho (os capitalistas), um “Chateau Patrus” nas comemorações de alta da Bolsa ou de uma transação biliardária; aos pobres, cachaça para afogar a desesperança diante das tenebrosas transações que lhes rouba o direito de “ser” e de “ter”.

Não é admissível ignorar que nas sociedades capitalistas os trabalhadores (i) são forçados a conversão de seu “ser genérico” (auto-realizador) em mera ferramenta a serviço do capitalista e à sua sobrevivência unicamente material; e (ii) emprenhados pela pregação idiotizante do valor supremo do individualismo, enquanto, na prática, são reduzidos – homens e mulheres – à unidades anonimamente intercambiáveis.[58]

Assim, massacrados como cana numa “engenhoca”, após ter toda sua seiva retirada são jogados fora como bagaço inerte, inutilizado, desprezível, inútil, ininpregável, irrecuperável, destinado ao relento das ruas, aos esgotos ou à sarjeta abjeta da deliqüescência capitalista.

Só a crítica radical, crítica levada às últimas conseqüências, procurando demolir o edifício teórico do idealismo, subjetivo e objetivo, e das mais diversas expressões do materialismo redivivas no século XXI, por mais paradoxal que possa parecer, transformada em força material coloca o proletariado ainda como a única força historicamente destruidora, capaz de assenhorear-se da consciência da miséria, moral e física, humanidade desumanizada, e executar

A sentença que a propriedade privada pronunciou contra si mesma gerando o proletariado... A miséria que lhe é imposta inevitavelmente expressão prática da necessidade - obrigam-no a se revoltar diretamente contra tal desumanização.[59]

À guisa de conclusão

Lutar contra o capitalismo significa, rigorosamente, lutar contra um processo que consiste exatamente em transformar os homem em espectro e sua vida em uma vida de sonho, ilusões sobre um mundo sem sentido. De modo que, não se trata de mitigar as penúrias das classes oprimidas, improvisando sistemas e se entregando à busca de uma ciência regeneradora[60] da consciência burguesa.

Numa sociedade capitalista, onde ocultar é primordial à sobrevida do sistema, todas as improvisações são postas como formas distrativas ou opiáceos ideológicos para a classe operária. Não há o trabalho pelo trabalho, tal como não há o lazer pelo lazer, posto, afirmar pelo capitalismo a humanização do proletariado, é preconizar o capitalismo por destino.

Sob o capitalismo ou nas atuais condições do mercado os operários e trabalhadores permanecerão sujeitados a vender sua força de trabalho a quem pagar mais, mesmo porque, ao capitalista, o avaro burguês, não importa o que produz desde que produza um lucro certo.[61] No capitalismo, comentam Marx e Engels:

Quanto mais o trabalhador se empenha em seu trabalho, tanto mais poderoso se torna o mundo estranho que ele cria contra si próprio, tanto mais pobre se tornam ele e seu mundo interior, e menos estes lhes pertencem. (...) O trabalhador coloca sua vida no objeto; mas agora ela não mais lhe pertence, mas sim ao objeto. Quanto maior sua atividade, portanto, menos objetos o trabalhador possui. O que o produto do seu trabalho é, ele não é. Portanto, quanto maior este produto, tanto menos ele é. A alienação do trabalhador significa não apenas sue seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas que existe fora dele, independente dele e estranho a ele, e começa a confrontá-lo como um poder autônomo; que a vida que ele conferiu ao objeto o confronta como algo hostil e estranho.[62]

Para superar o estágio de profunda alienação no qual permanecem submersos os operários e trabalhadores, hoje a defender tão somente a manutenção do emprego mesmo lhes custando a redução dos salários, continuamos postulando a necessidade histórica da razia da dominação burguesa e a edificação possível doutra sociedade na qual eles não serão “máquinas animadas” e produtivas serventes ao enriquecimento de uns poucos parasitas, mas homens e mulheres realmente livres para desenvolver suas personalidade de forma omnilateral.

Há sempre um engodo criado para aprisionar a consciência do proletariado na trama social do capitalismo. Por isto, repetimos com Marx:

O trabalho em si, não só nas presentes condições, mas universalmente, na medida em que a sua finalidade se resume ao aumento da riqueza, é pernicioso e deletério. (...) Na situação progressiva da sociedade, no entanto, o declínio e o empobrecimento do trabalhador é o produto do seu próprio trabalho e da riqueza por ele produzida. Por conseguinte, a miséria emerge constantemente da essência do trabalho hodierno. A mais opulenta condição da sociedade (...) é uma situação de miséria estacionária para os trabalhadores.[63]

O trabalhador é concebido pela economia política e, obviamente, pelos capitalistas, como um simples animal de carga cujas necessidades se limitam estritamente às necessidades corporais, biológicas. Mantidas as atuas condições sociais determinadas pela economia política o trabalho continua uniforme, monótono e repetitivo, sendo “por natureza (e a investigação confirmou-o) prejudicial para o espírito e para o corpo”.[64]

Para nós, insistimos, o capitalismo continua de forma célere a alienação do trabalho. Vejam, o trabalho não é visto pelo trabalhador como parte indissociável de sua natureza, mas como algo que lhe é exterior, portanto, como escreve Marx:

Ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruina o espírito. Por conseguinte, o trabalhador só se sente em si fora do trabalho, enquanto no trabalho se sente fora de si. Assim, o seu trabalho não é voluntário, mas imposto, é trabalho forçado. Não constitui a satisfação de uma necessidade (a própria), mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades (as do capitalista).[65]

Se, em virtude do arrazoado de Marx, aceito que o trabalhador só se sente livre nas suas funções animais, porquanto nas funções humanas se vê reduzido a condição de besta de carga, podemos concluir, primeiro, que o elemento animal torna-se humano e o humano animal e, segundo, que o processo de brutalização da classe operária só pode ser interrompido por um movimento social prático, por uma revolução.

A revolução é o coroamento da ruptura da alienação do trabalho (da coisa em si) e, obviamente, da razia das bases da auto-alienação, à medida que denuncia

a relação do trabalhador à própria atividade como alguma coisa estranha, que não lhe pertence, a atividade como sofrimento (passividade), a força como impotência, a criação como emasculação, a própria energia física e mental do trabalhador, a sua vida pessoal (...) como uma atividade dirigida contra ele, independente dele, que não lhe pertence.[66]

Por isto, procede repetirmos, quantas vezes for necessário, o fato de que o capital é a manifestação objetiva do trabalho no qual o homem se encontra totalmente perdido para si próprio. Ao capitalista não basta apenas que o trabalhador perca suas necessidades humanas; deverá perder também suas demandas animais, claramente biológicas.

Pertransidos pelo senso comum os intelectuais orgânicos da burguesia e os imiscuídos no meio operário nada mais fazem, senão discorrer sobre sombras, para além da realidade, metafísicas. Não vemos em suas argumentações a mínima possibilidade, nem um mínimo quantum de racionalidade a sustentar a tese que isola o mundo do não trabalho ou da a cultura distrativa do seu conteúdo e caráter de classe.

Face ao quadro irrefutável no qual agiganta-se o capitalismo e exacerba-se a desesperança da classe operária, fugindo a responsabilidade com quem os paga, vemos os intelectuais da moda criando “moda”, inventando “categorias” insustentáveis, tanto científica quanto filosoficamente, misturando teorias antitéticas, glosando tantas outras simplesmente para adaptá-las à sua parca concepção de mundo e de homem, enfim, pintando e bordando, sem nenhum constrangimento, para verem justificadas suas ações no interior da Academia e, quiçá, na Sociedade.

Enfim

Para não contrariarmos a regra, um panfleto revolucionário:

Homens (do Brasil), por que alimentar,

vestir e poupar, do berço ao túmulo,

os parasitas burgueses

que exploram vosso suor,

Ah! que bebem vosso sangue?

Por que homens (do Brasil),

Permitir que esses vagabundos

desperdicem o produto forçado do vosso trabalho?

Tendes acaso abrigo, alimento, ócio,

o bálsamo gentil do amor?

Ou o que é que ganhais a tal preço com o vosso

sofrimento e com o vosso temor?

Homens (do Brasil),

Semeai mas que o latifundiário não colha.

Descobri riquezas mas que o capitalista não as utilize.

Tecei roupas mas que os ricos não as vistam.

Forjai armas que devereis usar em vossa defesa.[67]


Bibliografia consultada

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[1] SEGATTO, N. e SEVERO, L. Quando o trabalho danifica o homem. Revista do Brasil, abril / 2007, p. 20

[2] MARX, K. O Capital. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1974.

[3] SEGATTO e SEVERO, 2007, p. 20

[4] SEGATTO e SEVERO, 2007, p. 20

[5] LAFARGUE, P. O direito à preguiça e outros textos. São Paulo : Mandacaru, 1977.

[6] LEFÉBVRE, H. Metafilosofia. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1967.

[7] MARX, K. O capital – livro 1, volume 1. São Paulo : Difel, 1982, p. 263

[8] Agravado pela combinação de três fatores: aumento da duração da jornada de trabalho ou de sua intensidade ou ambas, com a desnutrição ou subnutrição e diminuição do tempo de descanso ou recuperação.

[9] MARX, 1982, livro 1, v.1, p. 263-264

[10] MARX, 1982, livro 1, v.1, p. 264

[11] MARX, 1982, livro 1, v.1, p. 301

[12] MARX, 1982, livro 1, v.1, p. 470

[13] MARX, K. O capital- livro 1, volume 2. São Paulo, Editora Difel, 1982. p. 607

[14] MARX, K. Trabalho assalariado e capital. São Paulo, Global Editora, 1980. p. 18

[15] Trecho da letra da canção “Rancho da Goiabada” de João Bosco e Aldir Blanc.

[16] MARX, 1989, p. 108

[17] MARX, 1989, p. 108

[18] MARX, 1989, p. 109

[19] MARX, 1989, p. 159

[20] MARX, 1989, p. 161

[21] Retirado do segundo capítulo do livro de DE LA CUEVA, J. Esplendor, crisis y reconstrucción de la alternativa comunista. Ponencia para las IV Jornadas Independentistas Galegas Comunismo ou Caos. 27 Março - 6 Abril 2000 Galiza; Corunha, Compostela, Ferrol, Vigo, Pontevedra, Lugo. Capturado da Internet em 09/08/01 22:15:28.

[22] MARX, 1989, p. 108

[23] MARX, 1989, p. 43

[24] MARX, 1989, p. 44-45

[25] MARX, K. O capital – livro 3, volume 6. 3ª edição. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1981. p. 942

[26] MARX, K. Capítulo VI inédito de O capital. São Paulo, Editora Moraes, 1985. p. 97

[27] CORBISIER, R. Introdução. LEFÉBVRE, H. Metafilosofia. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1976. p. 56

[28] CORBISIER, 1976, p. 36

[29] MARX, 1989, p. 162

[30] LAFARGUE, P. O direito à preguiça e outros textos. São Paulo, Edições Mandacaru, 1990. p. 13-14

[31] LAFARGUE, 1990, p. 15

[32] LAFARGUE, 1990, p. 22

[33] LAFARGUE, 1990, p. 25

[34] LAFARGUE, 1990, p. 26

[35] LAFARGUE, 1990, p. 26

[36] BOURDIEU, P. Contrafogos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, p. 123

[37] BOURDIEU, 1998, p. 125

[38] BOURDIEU, 1998, p. 128

[39] Este tipo de trabalhador é bem conhecido pelos professores das Universidades Públicas. notadamente as Federais.

[40] BOURDIEU, 1998, p. 130

[41] MARX, 1989, p. 207

[42] MARX, 1989, p. 208

[43] MARX, 1989, p. 167

[44] SCHAF, A. História e verdade. São Paulo, Livraria Martins Fontes, 1991. p.99

[45] MARX, 1985, p. 87

[46] MARX, 1985, p. 87

[47] MARX, 1985, p. 56

[48] MARX, 1985, p. 96

[49] MARX, 1985, p. 96-97

[50] MARX, 1985, p. 115

[51] MARX, K. y ENGELS, F. La sagrada familia. México, Grijalbo,1962. p. 197

[52] DUARTE, N. Vigotski e o aprender a aprender – críticas às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. São Paulo, Editora Autores Associados, 2000. p. 174

[53] DUARTE, 2000, p. 161

[54] DUARTE, 2000, p. 175

[55] SAVIANI, D. Filosofia da educação: crise da modernidade e o futuro da filosofia da praxis. IN FREITAS, M. C. (Org.) A reinvenção do futuro: trabalho, educação, política na globalização do capitalismo. São Paulo, Editora Cortez, 1996. p. 182-183

[56] SAVIANI, 1996, p. 183

[57] DUARTE, 2000.

[58] EAGLETON, T. Marx. São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 23-24

[59] MARX, 1987, p. 37-38

[60] MARX, K. Miséria da filosofia. Moscou, Edições Progresso, 1979. p. 102

[61] EAGLETON, ibid., p. 25

[62] MARX, K. e ENGELS, F. História. Org. Florestan Fernandes. São Paulo, Editora Ática, 1983. p. 150-151

[63] MARX, 1989, p. 108-109

[64] MARX, 1989, p. 113

[65] MARX, 1989, p. 162

[66] MARX, 1989, p. 163

[67] Adaptado de um panfleto medieval (In HUBERMAN, L. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1974).