sábado, 26 de julho de 2008

Marx e o sujeito histórico[1]

Máuri de Carvalho[2]

Grupo de Estudos e Pesquisas em Judô: Filosofia, História e Educação

À maneira de introdução

Karl Marx encontra-se mais do que dantes envolvido nas polêmicas do nosso tempo; ele permanece no centro de um recontro, um combate breve, uma peleja política-filosófica na qual estão enredados os movimentos populares e os partidos de esquerda. Para além da substancial pobreza das interpretações tradicionais, simplificadoras e deformadoras da obra de Marx, ele põe a descoberto a problemática em sua profundidade e vastidão, inesperada tanto para os partidários como para seus contumazes críticos: a humanização do homem.

Os sonambúlicos e adormecidos que desfrutam o vazio do viver parados à porta da “Caverna”, que se entregam ao conformismo da sociedade e da cultura burguesas, são incapazes de captar a atualidade e o vigor da crítica marxista. Cumpre-nos apontar que das vinte e três obras principais de Marx[3] apenas onze foram editadas por ele[4], as demais, algumas (cinco[5]) foram publicadas ainda no século XIX, outras (sete[6]) publicadas apenas no século XX.[7]

Os não conformados à falsa inexorabilidade do capitalismo e às ilusões da burguesia, minimamente familiarizados com a literatura filosófica socialista e comunista, sabem que é muito difícil encontrar hoje um professor de filosofia (de sociologia, história etc.) que não se ocupe, abertamente ou por meios oblíquos, em tentar refutar o marxismo, em alguns casos, preferem inclusiva ignorá-lo. Após a queda do Muro de Berlim, um grande número de escritores que se dizia marxista empreendeu uma verdadeira cruzada contra a filosofia de Marx, especialmente, contra o que eles chamam de ortodoxia marxista ou via leninista do marxismo, o marxismo-leninismo.

Dizendo lutar contra os dogmas obsoletos do marxismo revolucionário e/ou do leninismo (este agravado pelo destempero ideológico e político de Stalin) e pelo desenvolvimento “criador” do marxismo, na verdade, pretendem “unificar” a filosofia marxista às confusas variantes do idealismo; armados com as mais diversas doutrinas supostamente modernas, os ferrabrases da filosofia e da epistemologia, outrora partidários, “renunciaram” total e definitivamente ao materialismo dialético e histórico, isto é, ao marxismo. A rigor, eles nunca foram marxistas, mas passageiros oportunistas de algo que era considerado como a teoria da moda.

Vejamos algumas marcas inelutáveis desses novos doutrinários: intermináveis subterfúgios, tentativas de eludir o fundo do problema, de encobrir o seu recuo, nítida recusa em analisar diretamente as numerosas teses materialistas e dialéticas de Marx e Engels, revisionismo filosófico típico, porque se afastando das concepções fundamentais do marxismo, assumiu demasiado consciente seu medo e sua incapacidade de ‘ajustar contas’ aberta, nítida, enérgica e clara, com as idéias que abandonou ou, quiçá, nunca incorporou.[8]

Se esses intelectuais em lugar de falar em nome ou contra Marx e Engels, falassem em nome dos intérpretes ou investigadores do marxismo – os conhecidos marxólogos e os neomarxistas – demonstrariam maior respeito por si mesmos e pelo marxismo.[9] Contudo, apesar deles, Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras, que

A existência é o primado sob o qual desenvolve-se a consciência; ... Era necessário salvar a dialética consciente, para integrar na concepção materialista da natureza – a natureza é a comprovação da dialética -; que nada havia de definitivo, de absoluto, de sagrado para a filosofia dialética para quem todas as coisas caducam e nada mais existe senão um ininterrupto processo do surgir e o perecer, da ascensão sem fim do inferior para o superior, de que ela própria não é senão o simples reflexo no cérebro humano pensante;

... O modo de vida material condiciona o processo da vida social, política e intelectual, em geral; ... A luta de classe é o motor da história; ... O que domina a sociedade capitalista é a produção de mercadoria e que ela ao acelerar o processo de automação, isto é, substituindo os operários por máquinas aumenta a riqueza num pólo e exacerba a miséria no outro;

Enfim, é inevitável a transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista, sendo o motor intelectual e moral ou agente físico dessa transformação, o proletariado educado pelo e no próprio capitalismo.[10]

Sujeito e objeto: uma relação histórica

Numa primeira aproximação, podemos dizer que, do ponto de vista filosófico, Marx constrói sua concepção de mundo - materialista e dialética - tomando como ponto de partida as contradições e antinomias presentes nas formulações de Hegel - manifestações dedutivas do seu intrínseco idealismo. Marx reprova a eleição do sujeito como furto da idéia ou um predicado da idéia ou do homem enquanto autoconsciência, o fulcro da obra hegeliana. Segundo ele, Hegel desenvolve o objeto a partir do seu pensamento, permanecendo na esfera abstrata da lógica; olvidando o homem como ser sensível, natural, real.

A superação da filosofia idealista e especulativa de jaez hegeliana, significa superar o antropologismo de Feuerbach e, obviamente, a superação de um homem abstrato pensado, imaginado, idealizado. Como adverte Marx, Hegel olvida que a essência do homem, sua particularidade, o que de singular existe nele, não é a sua barba seu sangue, sua impressão digital, seu fundo de olho, sua natureza física abstrata, mas suas qualidades sociais.

Marx reafirma sua concepção de mundo, de sociedade e de homem, ao proclamar não querer antecipar o mundo, mas a partir da crítica do velho pretender deduzir o novo atuando sobre o presente, pela crítica radical do todo existente (todo social) - radical no sentido da crítica é o que não se assusta nem frente aos resultados encontrados, nem frente ao conflito com as forças antagônicas existentes.[11]

Mas seria nos Manuscritos de 1844 que haveria de colocar de forma clara e cristalina sua concepção sobre a relação sujeito-objeto. Neles, ele problematiza acerca do homem, da alienação e do comunismo. As premissas trabalhadas nos Manuscritos seriam formuladas, em definitivo, nas Teses e na Ideologia Alemã.

Diferentemente da concepção hegeliana de homem como auto-consciência e da concepção antropológica de Feuerbach, a ontologia de Marx penetra mais fundo, nela o homem tem uma atividade vital consciente, faz de sua própria atividade vital o objeto de sua vontade e de sua consciência. A produção prática do mundo objetivo humanizado, transformação da natureza inorgânica (a subjetividade) confirma a tese de que o homem é um ser genérico consciente [ser de relações]. O homem é um ser prático, isto é, ele

apropria-se do seu ser omnilateral omnicompreensiva (ou sua essência universal de forma universal), portanto, como homem total. Todas as suas relações humanas ao mundo – visão, audição, olfato, gosto, percepção, pensamento, observação, sensação, vontade, atividade, amor – em suma, todos os órgãos de sua individualidade como também os órgãos que são diretamente comunais em sua forma, são no seu comportamento objetivo ou no seu comportamento perante o objeto as apropriações do sobredito objeto, as apropriações da realidade humana.[12]

A apropriação da realidade humana, isto é, a maneira como o homem reage ao objeto, é a afirmação dessa realidade; ela é polifacética como múltiplas são as determinações da natureza humana e suas atividades; “é a eficiência humana e o sofrimento humano, já que o sofrimento humano considerado é uma auto-afirmação (gozo) do homem”.[13]

A crítica de Marx clamando pela omnilateralidade do ser humano, é erguida à unilateralidade e à ignomínia das relações sociais de produção capitalistas ou ao mundo da propriedade privada, onde só considera-se o objeto quando existe como capital ou quando é por nós possuído, comido, bebido, transportado no corpo, habitado etc., numa palavra, quando é utilizado.

A supressão da propriedade privada é a conditio sine qua non da emancipação dos sentidos humanos e de todas as qualidades humanas e à esta emancipação só se pode chegar porque os sentidos e as qualidades se tornaram humanas, tanto subjetiva como objetivamente. Assim, o proletariado anuncia a dissolução da ordem social existente – reinado da propriedade privada – apenas declara o mistério da sua própria existência, porquanto é a efetiva dissolução desta ordem.

De maneira que, “o olho tornou-se um olho humano, no momento em que o seu objeto se transformou em objeto humano, social, criado pelo homem para o homem, (...) os sentidos tornaram-se diretamente teóricos na sua prática”.[14]

Sob esta premissa não há o humano a priori, quer dizer, o homem não nasce humano, mas se torna humano. Portanto, são as condições históricas concretas, tanto aquelas produzidas por sua vontade como as previamente encontradas produzidas por gerações pretéritas, aquelas sob as quais ocorre o processo de humanização. O homem é produto e produtor da história e de sua própria humanidade.

Em Marx, o desenvolvimento do objeto e dos sentidos ocorre de forma simultânea, e o processo histórico estribado na relação do homem com a natureza e a realidade em geral – o “todo social” previamente encontrado, inicialmente alheio a sua vontade, esta também historicamente construída e condicionada -, é a produção de objetos como objetos humanos.

A produção aqui é tomada numa acepção mais alargada que a atribuída a eles pelos os mais diversos revisionistas e “intérpretes”, de tal maneira a não ser restringida apenas a produção de coisas, produtos ou obras materiais, mas também de idéias (ideologia), de consciência e de conhecimentos, de ilusões e de verdades.[15]

A prática social (entendida como práxis revolucionária) apoiada no presente e constituindo-o, preparando o futuro, visa o possível, quer dizer, no horizonte põe a necessidade da transformação da sociedade capitalista a ser empreendida por uma revolução total. Em Marx, a produção não fica restrita ou limitada ao seu sentido estrito – ou atividade que fabrica coisas para trocá-las, mas incorpora, necessariamente, o seu sentido amplo – ou produção das idéias, representações, linguagem... . Logo, o primeiro sentido apóia o segundo e designa sua base material.

Assim, os homens transformando a natureza às suas necessidades, têm seus órgãos constituindo-se como órgãos sociais na forma da sociedade. É evidente que o olho animal se torna um olho humano (da visão possível infravermelha, à visão necessária na presença da luz solar e à visão ‘cega’ na ausência dessa luz), tal como seu objeto se torna um objeto social, humano, criado pelos homens para eles próprios. Na prática, seguindo Marx, só conseguimos nos relacionar humanamente com os objetos, quando eles se encontram referidos a nós de modo humano.[16]

Sob este prisma de raciocínio lógico, podemos inferir que tanto os cinco sentidos sensitivos “como os sentidos práticos – vontade, amor, etc. – , com outras palavras, os sentidos humanos, a humanidade dos sentidos – se constituem unicamente mediante a existência do seu objeto, a natureza humanizada”.[17]

A formação dos nossos sentidos, tal como os conhecemos hoje, é fruto de um longo e extenuante desenvolvimento social de toda a história universal anterior. Em passant, os nossos sentidos estão em franca decomposição, não reconhecemos e nem conseguimos classificar os mais diversos sons, as nuanças das cores, as diferenças de olores; na sensação tátil, é um desastre, o urbanóide não consegue estabelecer diferença entre uma certa geléia e uma porção de... amolecida e fria.

Sal melhor juízo,

a objetivação (para nós humanização do objeto, quando a matéria prima recebe uma determinada forma produzida pela ação do homem que exerce essa ação) da essência humana, tanto do ponto de vista teórico como prático, é necessário para a humanizar os sentidos do homem e criar a sensibilidade humana correspondente a toda a riqueza do ser humano e natural (os itálicos são nossos).[18]

A rigor, é no contexto social, sujeito e objeto, subjetivismo e objetivismo, idealismo e materialismo, metafísica e dialética, deixem de ser e de existir como antinomias. A resolução dessas aparentes contradições – unicamente teoréticas – só é possível através da prática social, “da energia prática do homem”.[19] Por este caminho, Marx suplanta as querelas do idealismo e do materialismo de seu tempo, formulando de modo absolutamente distinto o nexus entre sujeito-objeto. O objeto se converte em objeto, humano, a natureza é a natureza humanizada pela prática do homem.

Diante disto,

o social é o caráter universal de todo o movimento; assim como a sociedade produz o homem, enquanto homem, assim ela é por ele produzida. A atividade e o espírito[20] são sociais tanto no seu conteúdo como na origem; são atividade social e “espírito” social. (...) Por conseguinte, a sociedade constitui a união perfeita do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição da natureza e o humanismo integral da natureza.[21]

Em Marx, a rigidez metafísica e a ausência da relação dialética sujeito-objeto, tão peculiar aos intelectuais contemporâneos, perdem de modo decisivo sua imposta e suposta consistência. Neste sentido, qualquer referência a questão da gnoseologia, do conhecimento, que prescinda da praxis humana, histórica e socialmente construída, situada no tempo e no espaço, implica separar o inseparável ou identificar a-historicamente o sujeito separado ou, grosso modo, em oposição ao objeto.

Na verdade, temos aqui uma crítica explícita e ácida a perspectiva filosófica que advogava (?) à teoria a possibilidade de resolução de todas as contradições e problemas postos pela história. Ora, segundo Marx, a teoria ou o mundo da teoria no qual localizamos a ideologia, a filosofia, etc. – não só é parte constitutiva, como não pode ser compreendida fora do “todo social”.

No fetichismo, por exemplo, a inimizade abstrata entre sensibilidade (prática) e teoria (manifestação do “espírito”) é necessária à ocultação de que o sentido humano para a natureza, o sentido humano da natureza, e, portanto, o sentido natural do homem, não é produto do trabalho do homem.[22] Como vimos, a idéia do homem como ser prático ou ser da praxis, ser que se humaniza na prática sobre a natureza, é tema central dos Manuscritos, ressurge com todo vigor e profundidade nas Teses sendo mais claro ainda nas Teses I e V.

Na Tese I, “o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial como tal (quer dizer, não reconhece a própria atividade humana como atividade humana objetiva). Portanto, não compreende a importância da atividade “revolucionária”, prático-crítica”[23]; enquanto que na Tese V, temos que “Feuerbach, não contente com o pensamento abstrato, apela à contemplação sensorial; (por isto) não concebe a sensibilidade como atividade sensorial humana prática”.[24]

Destas duas teses, Marx extrai a formação prática da vida ou da produção do trato material, a consciência dessa prática ou dessa produção, como verdade. Nas teses II e VIII ele reporta-se ao caráter de íntima conexão entre o pensamento e a prática, sendo de caráter puramente escolástico o “litígio sobre a realidade ou irrealidade de um pensamento humano isolado da prática, é um problema”.[25]

A rigor, na Tese VIII, Marx refere que todos os mistérios postos pelos homens, inclusive aqueles que desfilam sob teorias místicas “encontram sua solução racional na praxis humana e na compreensão dessa praxis”.[26]

Na Tese III, a relação sujeito-objeto se consubstancia como indissociável, pois à medida que o homem é um ser prático, um ser ativo, portanto, ele não é apenas um produto das circunstâncias, senão quem, ao mesmo tempo, é um criador de circunstâncias. E a coincidência da variação das circunstâncias e da atividade humana (ou alterações de si próprio” é compreendida como praxis revolucionária. Aqui o educador necessita ser educado.

Já na IV, VI e VII, a questão da religião (enquanto ideologia burguesa), para além da concepção metafísica e abstrata do ser humano, Marx sustenta que ela – a religião – não deve ser estendida diretamente à essência humana, mas considerada como expressão de determinadas relações sociais ou das contradições da base terrenal sob as quais são construídas as religiões. Diz ele, “a essência humana não é algo abstrato inerente a cada indivíduo singular. É, em sua realidade, o conjunto das relações sociais”.[27] Ao fazer-se abstração da trajetória histórica e social dos homens, é possível enfocar o sentimento religioso como inerente ao suposto e abstrato indivíduo humano, isolado como um Robinson Crusoé, sem o “Sexta-feira”, claro!

É na Tese IX que a superação da realidade social, cindida e contraditória, surge como condição sine qua non da existência humana, Portanto, do ponto de vista do materialismo dialético e histórico, os distintos indivíduos só podem sem entendidas no interior, não da “sociedade civil”, mas da “sociedade humana ou a humanidade socializada” (Tese X).[28]

Enfim, a transformação da sociedade não é obra ou tarefa do pensamento, da idéia, da teoria, da abstração, quer dizer, da mera interpretação dos fatos; mas, enquanto problema, refere diretamente à praxis revolucionária, posto que, mais do que “interpretar a realidade como fazem os filósofos de diversos modos, é preciso transformá-la” (Tese XI).[29]

A compreensão dessas Teses nos permite perceber sua estreita conexão com os Manuscritos de 44 os quais prefiguraram o sentido e o conteúdo da crítica à Feuerbach. Com uma pequena observação. As Teses continuam sendo um documento eivado de originalidade e clássico para o estudo do desenvolvimento do pensamento e/ou da consciência humana. Essas Teses são o real estribo sob o qual é possível localizar a teoria do conhecimento de Marx (e de Engels).

Hoje, as teorias do conhecimento hegemônicas na Academia, exceção feita ao materialismo dialético e histórico, não são produtos do movimento real dos homens e mulheres, mas escritos puramente teóricos saídos inteiramente do “pensamento puro” dos intelectuais. Esses teóricos, ou pífios theoróis, à distância observam, anotam e relatam, nem sempre revelam o ocorrido, mas a sua versão dos fatos observados. Aceitando de olhos fechados a ilusão capitalista ou ilusão de classe que nos seus escritos é apontada como a real ordem social, “conforme com a razão e não com as necessidades de uma classe e de uma época determinadas”.[30]

Com outras palavras, a nenhum desses intelectuais se lhes ocorreu perguntar pela relação entre suas teorias e a realidade social e histórica da qual são partes, isto é, relação das suas críticas com o mundo material que os rodeia. Por isto, Marx e Engels apõem ao discurso dominante sua concepção original de mundo, de sociedade e de homem, pois para eles não se deve partir de premissas arbitrárias, mas dos indivíduos reais, em determinadas condições materiais de vida, tanto aquelas já engendradas e encontradas por eles, como as engendradas por sua própria ação; essas premissas podem ser observadas e comprovadas, conseqüentemente, pela via puramente empírica.[31]

Em busca dos pressupostos teóricos

Qual é para Marx e Engels o pressuposto ou a “primeira” premissa de sua prática social e de sua produção intelectual?

A “primeira premissa”, dizem eles, “de toda a história humana é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos viventes”.[32] Para eles, o primeiro ato histórico dos homens, mercê do qual se distinguem dos outros animais, não consiste na construção do pensamento ou do que pensam e como pensam, mas na produção dos meios materiais indispensáveis à sua subsistência. Sem sobra de dúvida, podemos distinguir os homens dos outros animais pela consciência, pela ideologia ou pelo que queiramos.

Os homens se distinguem ou começam a perceber a diferença entre eles e os outros animais, a partir do momento em que produzem os meios materiais próprios a perpetuação de sua vida, em outras palavras, o modo de produção da existência, adaptar a natureza às suas necessidades, passo este condicionado por sua organização corporal, e, como conseqüência, ao produzir seus meios de subsistência, os homens produzem indiretamente sua própria vida material e espiritual e sua relação simbiótica com a natureza.

A concepção do homem com um ser prático ou que se humaniza na e pela prática, é o fundamento de todas as considerações de Marx e Engels. Neste sentido, “tal como são os indivíduos manifestam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, por conseguinte, com sua produção, tanto com o que produzem como com o modo como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais se própria produção”.[33]

Com efeito, não devemos entender a produção apenas em sentido estrito ou tão somente no sentido da reprodução da existência física dos indivíduos. Na verdade, ela deve ser compreendida lato sensu como atividade destes indivíduos, isto é, um determinado e idiossincrático modo de manifestar sua vida material e espiritual. Então, em sentido lato, o modo de produção contempla necessariamente a produção da esfera intelectual.

Sob esta premissa podemos compreender os meios de produção, tal como os instrumentos de produção, como elementos da práxis e as relações sociais geradas no âmbito da formação prática da vida, assim como a consciência de tal processo produtivo. Porque é, a rigor, a essência social – a produção dos homens e as relações que se estabelecem a partir dessa produção; ela determina cada momento da vida dos homens e das mulheres, até mesmo sua consciência, que é sempre e apenas a consciência destes indivíduos.

Para Marx e Engels,

a produção das idéias, as representações e a consciência, estão, de início, diretamente entrelaçadas com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. A formação das idéias, o pensamento, o trato espiritual dos homens se apresentam aqui, todavia, como emanação direta do seu comportamento material.[34]

Na verdade, o mesmo ocorre com a produção intelectual – manifesta na linguagem política, nas leis, na moral, na religião, na metafísica, etc. - de uma determinada sociedade.

Se os homens produzem suas representações, suas idéias, etc., trata-se, então, de “homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo trato que a eles corresponde, até chegar às suas formas mais amplas”.[35]

Contrariando o pensamento filosófico positivista ainda hegemônico, é possível afirmar que

o ser dos homens é o seu processo de vida real - a consciência jamais pode ser outra coisa que o ser consciente - e se na ideologia burguesa os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, este fenômeno é derivado do processo histórico de vida, como a inversão dos objetos ao projetar-se sobre a retina provém do processo de vida diretamente físico.

Se não partimos daquilo que os homens imaginam ou representam, mas dos homens concretos, de carne e osso, isto não pode servir de base para que entendamos a consciência apenas como reflexo da realidade, pari passu, deixando de lado o fato que a realidade é sempre uma relação social, na qual até a natureza está implicada pelo fato de transformá-la (transformando-se) nesta mesma relação. É preciso não esquecer, a praxis dos homens implica / pressupõe a ciência desta praxis, quer dizer, a geração de determinadas idéias, pensamentos e concepções sobre ela e sobre a situação / posição dos homens dando-se no seu interior.

Como apontavam Marx e Engels:

não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. Na primeira maneira de considerar as coisas, parte-se da consciência como do próprio indivíduo vivo; na segunda, que é a que corresponde a vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais, vivos, e se considera a consciência unicamente como sua consciência ou unicamente como consciência destes indivíduos que têm uma atividade prática.[36]

Esta forma de considerar a consciência não carece de fundamentos, eles são reais à medida que são os próprios homens no processo real de suas vidas, perfeitamente verificável constatável em determinadas condições por via empírica.

O transcurso da polêmica viagem ao mundo cada vez mais surpreendente da obra de Marx e dos marxistas, fazemos a seguinte ponderação: o marxismo demonstra como se realiza a união entre a dialética e o materialismo; ligados indissoluvelmente, podemos encontrá-los nos fatos, no desenvolvimento do homem cujo caráter simultaneamente material (condições orgânicas, técnicas e econômicas) e dialético (conflitos múltiplos) se revela a qualquer pesquisa que se exima metódica e sistematicamente do isolar os fatos uns dos outros, bem como se proponha a mergulhar cada vez mais fundo a totalidade do processo ou o todo social.[37]

Contrariando as teorias idealistas do conhecimento, que se propõem neutras, apartidárias, Marx não escondeu jamais a perspectiva de classe que orientou seu pensamento que fez lavrar em sua obra.[38]

Talvez, por isto, os neomarxistas e os “pós-marxistas” substituem as “verdades absolutas”, segundo eles postas pelo marxismo, por mentiras relativas. Como diria Marx, são como espadachins mercenários que se utilizam das intenções perversas da apologética para o ludibrio dos excluídos, dos operários e trabalhadores assalariados. As assertivas de científicas de Marx são substituídas por proclamas canônicos e dogmáticos, absconsos no detrás do biombo da diversidade e do pluralismo epistemológico, garantes do desideratum da burguesia.

O conhecimento neutro, a ciência para todos, a economia política como ordenação monetária e financeira da vida em sociedade, o Estado a serviço de todos os cidadãos, liberdade, democracia e igualdades formais, abstratas, compõem o velho “cavalo cavalgado há milênios por todos os reformadores do mundo inteiro, esse Rocinante estafado sobre o qual os Dom Quixotes da História galoparam”[39] e galopam para arrebanhar os excluídos aos “currais” dos quais a burguesia não pode prescindir.

O intelectual que aceita ou se deixa influenciar e iludir pela concepção de mundo da burguesia se desarma inevitavelmente, do ponto de vista moral tornar-se-á um filisteu privado de vontade e de faculdade de agir; mas, se por outro lado, se ele toma o marxismo como teoria do conhecimento, a partir do próprio escrutínio crítico, consegue descobrir o caráter burguês das teorias idealistas do conhecimento, bem como em Marx “o caráter proletário de seu próprio ponto de vista”.[40]

Sem subterfúgios e sem evasivas, é o próprio Marx quem numa de suas primeiras obras escreve:

Assim como os economistas são os representantes científicos da classe burguesa, assim também os socialistas e os comunistas são os teóricos da classe proletária. (...) A ciência produzida pelo movimento histórico e se associando a ele em pleno conhecimento de causa, deixou de ser doutrinária, ela se tornou revolucionária.[41]

A teoria do conhecimento em Marx e o método dialético utilizado por ele não são neutros, mas “um escândalo e uma abominação para a burguesia e seus porta-vozes doutrinários, porque, na compreensão positiva das coisas existentes, ele inclui ao mesmo tempo a inteligência de sua negação, de seu declínio necessário... ele é essencialmente crítico e revolucionário”.[42] A nosso juízo, o “corte” ou a “ruptura” entre Marx e os intelectuais que o antecederam é um corte de classe tanto no âmbito da economia política, quanto no âmbito da filosofia: um verdadeiro “corte epistemológico”.

Ao ler Marx fica claro que a dedução do mundo a partir de categorias filosóficas é tão inútil como a dedução da história a partir de categorias econômicas. Todas as categorias, sejam elas filosóficas ou econômicas, são históricas e transitórias, quer dizer, mudam quando mudam as sociedades.

Marx não constrói sua teoria ou o materialismo histórico e dialético a partir de pressupostos arbitrários, mas a partir de indivíduos reais que encontram determinadas condições vitais e que criam outras com sua própria ação. Neste sentido, o primeiro pressuposto da História humana é a existência de indivíduos humanos e sua relação com a natureza. Contrariamente ao que ocorria com a filosofia alemã, a sua teoria do conhecimento foi elaborada a partir do processo de vida material dos homens, empiricamente constatável e ligado a pressupostos materiais dos quais as nebulosas formações no cérebro dos homens são apenas sublimações.

A concepção do homem como ser prático - e não apenas teorético - é o fundamento de todas as considerações elaboradas por Marx. Nesse texto ele – com seu amigo Engels que não pode ser considerado com um simples segundo violino –, com respeito a relação entre o ser e o pensamento, adotou uma postura filosófica – ontológica – clara de maior profundidade e maior impacto à História da filosofia que seus antecessores.

Para Marx, a consciência não é um simples reflexo da realidade, haja vista ser a realidade uma produção fruto das relações sociais pelas quais a natureza é transformada transformando os homens. A praxis dos homens implica o pensamento sobre elas, isto é, criação de determinadas idéias, pensamentos e concepções sobre a praxis e sobre a posição que os homens ocupam nessa atividade.

Se Marx e Engels consideram as formas ideológicas como não tendo uma história própria é porque elas são produtos da consciência humana. Obviamente, “ao desenvolverem a produção e o intercâmbio material [os homens] transformam também seu pensar e os produtos do seu pensar”.[43] Logo, não é a consciência que determina a existência, mas a vida – a existência – é que determina a consciência.

Portanto, os pressupostos dos quais partem Marx e Engels são reais e não os abandonam um só instante. Vale recordar, estes pressupostos, , não são “robinsonadas” ou homens em isolamentos fantásticos, “mas em seu desenvolvimento real, em condições determinadas, empiricamente visíveis. [Suprimida toda especulação] começa a ciência real, positiva, a exposição da atividade prática, do processo prático do desenvolvimento humano”.[44]

A filosofia e as diversas teorias do conhecimento, isoladas da história real ou a realidade material construída coletivamente pelos homens e mulheres, são meras abstrações, não possuindo, portanto, valor algum. Partindo do processo ativo de vida dos homens, a história deixa de ser um conjunto imaginário de fatos inexeqüíveis de sujeitos imaginários:

O primeiro ato histórico dos homens é a produção de meios capazes de atender as necessidades fundamentais dos homens – comer, beber, habitar, vestir-se – este é um ato histórico que deve ser cumprido todos os dias e todas as horas, apenas para manter vivos os homens.[45]

O segundo constitui o fato de que atendimento das necessidades primeiras conduz à novas necessidades; enquanto o terceiro refere à relação de homens e mulheres na procriação e a partir daí estabelecem novas relações entre eles e seus filhos; nasce a família. Nesta perspectiva, “a consciência é desde o início um produto social e continuará sendo enquanto existirem os seres humanos”.[46]

A consciência é, antes de mais nada, consciência do ambiente sensível imediato e do reduzido vínculo e/ou da conexão limitada com outros homens e coisas existentes independentes do indivíduo que se torna consciente.

Pari passu, é a consciência da natureza contraposta aos homens como uma força estranha, inacessível, onipotente. Com o aperfeiçoamento e o aumento da produção surge a histórica divisão do trabalho que, originariamente, nada mais era senão divisão do trabalho no ato sexual; e na divisão do trabalho determinado pelos aspectos morfo-funcionais dos seres humanos - surge a dicotomia entre o trabalho material e o intelectual.

A divisão do trabalho, por outro lado, torna possível o prazer e o trabalho, a produção e o consumo correspondentes a distintos indivíduos, a provocar contradições entre eles. Estas contradições só podem ser suprimidas em sociedades onde for erradicada a divisão social do trabalho.

Lamentavelmente, as lutas na esfera estatal pela democracia operária e contra a atual classe dominante, luta pelo sufrágio universal como argumento maior do “cretinismo parlamentar”, assume formas ilusórias sob as quais se desenvolvem (ocultas) as reais lutas entre as classes fundamentais do capitalismo. Nesta luta, a classe vitoriosa deve apresentar seus próprios interesses e objetivos como interesses e objetivos gerais, comuns ao conjunto da sociedade. Contudo, o elevado nível do desenvolvimento das forças produtivas é imprescindível, absolutamente necessário, porque sem ele generaliza-se a escassez e a miséria – esta como fonte da luta pelo estritamente necessário.

Neste sentido, apenas com a superação da base econômica ou da propriedade privada supmrimir-se-á a carência como foco de “toda imundície anterior”[47], tal só ocorrendo pela regulamentação comunista do processo produtivo, porém o comunismo não é um Estado que deve ser estabelecido, um ideal ao qual a realidade terá que se adaptar. O comunismo é o movimento real histórico e coletivamente edificado que anula e supera o estado de coisas atualmente existentes.

A força estranha que aprisionou e envia os trabalhadores para os níveis mais baixo das “galés” do capitalismo no qual a miséria campeia a solta, só pode ser dissolvida, erradicada, suprimida, pela força da uma revolução comunista, sob a qual a libertação de todos os homens e mulheres é produzida ao passo com a história transformando-se em histórica universal. “Não é a crítica, comenta Marx, mas a revolução a força motriz da história”.[48]

A conversão dos indivíduos – em indivíduos desenvolvidos de forma multifacetada – e a transformação do trabalho alienado em manifestação espontânea a serviço da realização humana, isto é, a transformação massiva dois homens e mulheres, de sua consciência, só pode ocorrer por intermédio de um movimento prático, de uma revolução. A revolução por conseguinte, é imprescindível não só porque historicamente é o único meio de demolir o domínio da burguesia, mas também porque apenas ela permite à classe operária varrer a podridão do velho sistema e tornar-se capaz de fundar a sociedade socialista sobre bases novas.

Todavia, a atual divisão do trabalho tem implicado a consciência imaginando-se diferente da consciência da praxis existente, quer dizer, consciência sem representação na vida real, emancipada do mundo, portanto, capaz de entregar-se à criação de teorias, da teologia, da filosofia, da moral etc., “puras”. Espectros, nexos, conceitos e escrúpulos são resultados da experiência espiritual idealista, representação aparente do indivíduo isolado, historicamente inviável.

O marxismo tanto pode ser compreendido como uma teoria do conhecimento - a encerrar a análise, interpretação e explicação da gênese da consciência (materialismo dialético) e do desenvolvimento das sociedades humanas (materialismo histórico) em seus diversos modos de produção - escravismo, asiático, feudalismo e capitalismo objetivando a transposição deste para o comunismo passando por uma fase intermediária de lutas radicais, o socialismo -; como linha de ação revolucionária à transformação do capitalismo, ou ambas.

No entanto, os ideólogos da burguesia o refutam como ambas possibilidades. Em seu obscurantismo olvidam que Marx (1) propôs o materialismo dialético como forma moderna do materialismo; (2) desenvolveu - junto com Engels - a filosofia das luzes precisamente como dialético, ultrapassando-a; (3) superou pelo método dialético os estreitos limites do materialismo do século XVIII que o estado das ciências, à época, tornou inevitável.

Herdeiro e continuador da filosofia das luzes, o materialismo histórico estende os princípios do materialismo dialético ao estudo rigoroso da vida social, ao estudo do desenvolvimento das sociedades. A teoria do conhecimento marxista evidencia que a emancipação da humanidade inteira tem por condição a emancipação do proletariado, e é graças à revolução proletária e à construção da sociedade socialista [etapa primeira da sociedade comunista] que a sociedade verdadeiramente humana deixa de ser uma abstração para tornar-se realidade, na forma da sociedade sem classes.

Marx e Engels nos mostram que a liberdade é a consciência da necessidade; eles nos fazem ver que o desaparecimento da antinomia liberdade x determinismo, nos mostra também que a liberdade dos homens e mulheres trabalhadores está ligada não à limitação da ciência, hoje a serviço da acumulação e ampliação do capital, mas ao seu pleno desenvolvimento. A concepção marxista de sociedade e de homem coloca a liberdade real que os homens e mulheres constroem no decorrer do longo desenvolvimento histórico, econômico e político, no lugar da liberdade fantástica dada de uma vez por todas. A afirmação da liberdade real exige, não a afirmação, mas a negação do milagre.

Marx não constrói uma utopia a nos propor um futuro antecipadamente conhecido, uma filosofia da história de homens livres: mas decifra os fatos, descobre-lhes em sentido comum, obtém assim um fio condutor que, sem nos dispensar de recomeçar a análise de cada período, permite-nos discernir uma orientação dos acontecimentos”.[49]

Com efeito, o homem não é visto por Marx como ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Por isto, todas as mistificações e religiões, produzidas socialmente, são entendidas como realizações fantásticas da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. As religiões representam ou são manifestações da autoconsciência e do sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ou voltou a se perder.

Para Marx a função da filosofia (enquanto concepção de mundo e teoria do conhecimento levada às últimas conseqüências) “a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação nas suas formas não sagradas”, daí que a filosofia tem por imperativo transformar a crítica do céu em crítica da terra, “a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política”.[50]

A crítica é apresentada e exercida não como fim em si, mas meio; “a indignação é o seu modo essencial de sentimento, e a denúncia a sua principal tarefa”. A crítica explícita na teoria do conhecimento de Marx, não é apenas uma lanceta anatômica, mas uma arma letal; “o seu alvo é um inimigo que ela procura não refutar, mas destruir”.[51]

A teoria do conhecimento de Marx é construída, segundo suas próprias palavras, como crítica num combate corpo a corpo. Todavia, ao contrário dos seus interpretes onustos de falsos filosofemos, Marx sentencia: “a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas; a força material só será derrubada pela força material; mas a teoria em si torna-se também uma força material quando se apodera das massas”.[52] Mas para se apoderar das massas precisa ser radical, isto é, “agarra as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem”.[53]

Se para a crítica marxista o homem é o ser supremo, então, seu

imperativo categórico [é] derrubar todas as condições em que o homem [operário] surge como um ser humilhado, escravizado, abandonado, desprezível – condições que, no dizer de Marx, dificilmente se exprimirão melhor que na exclamação de um francês, por altura da proposta de imposto sobre cães: Pobres cães! Já vos querem tratar como homens![54]

Mas se as revoluções são erguidas a partir de condições objetivas, materiais, uma teoria só pode realizar-se à medida que é a realização das necessidades materiais e intelectuais de uma sociedade, ou melhor, de uma classe social. A nosso juízo, tanto uma revolução como uma teoria crítica só pode ser a revolução e a teoria da manifestação das necessidades reais desta classe. Em Marx temos que a teoria do conhecimento serve à revolução que, por sua vez, é a revolução radical, a emancipação humana universal e não “a revolução parcial, meramente política que deixa de pé os pilares do edifício”.[55]

Poderíamos dizer, então, ser a teoria do conhecimento de Marx a cabeça dessa emancipação e o proletariado – classe revolucionária par excellence – o seu coração. Posto, a ab-rogação do proletariado pressupõe a realização da filosofia.[56] A crítica pela práxis revolucionária suprime o modo de produção capitalista e faz com que os homens passem do reino da necessidade ao reino da liberdade. Posto, o marxismo é construído como teoria do conhecimento que não separa o sujeito do objeto, “o indivíduo do grupo social, o homem da história, o cientista do moralista, o homem culto do ignorante e o burguês do operário”.[57]

O marxismo é também um método de pensamento (teoria do conhecimento), filosofia [concepção de mundo] e linha de ação que coloca a necessidade da resolução e superação das contradições do real, que todas as outras doutrinas e teorias do conhecimento se limitam a refletir. Mais. O marxismo é incompreensível fora - aquém ou além - da realidade, porque em sua gênesis e evolução, é filho do esforço dos homens para conquistar a realidade; por conseguinte, seu método... dialético restabelece a relação do pensamento com a realidade, da teoria com a prática.

A filosofia recolocada na luta política e científica devolve à inteligência sua verdadeira função original de organizadora da conduta humana para erradicar os estreitos limites da sociedade burguesa entre os quais os trabalhadores e trabalhadoras se encontram desumanizados. O marxismo se nos configura como única teoria do conhecimento que propõe à alienação humana a sua emancipação pela revolução social e o comunismo como necessário histórico ao restabelecimento da unidade e da dignidade do homem.

A partir do marxismo nos é facultada a critica lúcida e conseqüente dos diversos ensaios de construção do socialismo. Nenhuma teoria do conhecimento é comparável ao marxismo como fator do esclarecimento da dinâmica, contradições e crises cíclicas ou recorrentes do modo de produção capitalista.[58]

Contra a ofensiva dos “contra” é possível e necessário dizer que apontar a validade incontornável da teoria de Marx e do marxismo jamais será um ato gratuito e sem conseqüências. Reafirmar Marx, neste início de século, significa recolocar na ordem do dia a possibilidade e a necessidade históricas da revolução como instrumento expropriador dos expropriadores - o fim da exploração capitalista - e da emancipação / libertação do proletariado e dos trabalhadores assalariados.


Para concluir: pequeno esboço sobre a teoria do conhecimento em Marx

Karl Marx trabalha sobre a unidade teórica desde a Questão Judaica. Contudo, a concepção materialista da história é posta, pela primeira vez, na A Ideologia alemã e nas Teses à Feuerbach. O nascimento do materialismo dialético (a filosofia) e o materialismo histórico (a ciência) se dá em conjunto ou pari passu.

O rechaço ao comunismo representava um real obstáculo para Marx sair do “sarcófago” do idealismo hegeliano. A alienação é a perda ou a não realização da essência humana (genérica) – centro conceitual nos Manuscritos de 1844.

Ao jovem Marx interessava a revolução, e não a permanência no diagnóstico, por ser o único instrumento ou mecanismo a romper com o processo civilizatório da burguesia, estribado na alienação dos trabalhadores.

A concepção de Marx é histórica porque a relação sujeito / objeto é concreta e, obviamente, histórica. A tríade inquebrantável: alienação / emancipação - revolução / comunismo representa a luta pela realização da essência humana. É necessário romper com o capitalismo para recuperar ou construir a essência humana perdida /olhida - a emancipação no comunismo. O corte dialético ocorre a partir da influência da filosofia sobre a economia e da economia sobre a filosofia. O comunismo científico não é um tipo de sociedade, mas uma formulação teórica. Nos Manuscritos de 44 encontramos um primeiro esboço crítico teórico da revolução.

A unidade teórica - economia, filosofia, revolução, comunismo, ditadura do proletariado, destruição do Restado, expropriação dos expropriadores - é permanente, dinâmica, feita de partes que se interpenetram e jamais se dissociam. A unidade conceitual no interior da qual as “coisas” se movem e se modificam é erguida contra as “mônadas” sem comunicação. Observação: A Universidade é o universo das “mônadas” galopantes.

Marx não funda o materialismo e nem a dialética, mas um tipo de materialismo e de dialética. O historicismo encerra a idéia de movimento histórico ou da história como movimento das passas. Cuidado com a história a-histórica.

O marxismo nasce como saber transdisciplinar – interpenetração das idéias ou síntese de múltiplas determinações. Marx só consegue chegar ao materialismo quando abraça o comunismo e abraça o comunismo justamente porque chega ao materialismo.

A validade do marxismo. A atualidade do pensamento e da obra de Marx e Engels ressalta sobretudo aos olhos de quem foi capaz de se assumir e manter o espírito crítico perante as estruturas sociais, econômicas e políticas existentes e perante as próprias estruturas teóricas da sociedade contemporânea, hipocritamente chamada de “sociedade do conhecimento”.

A atualidade do marxismo reside no estudo e re-interpretação do concreto como totalidade histórica, descobrindo nele a necessidade e a natureza da revolução proletária. Os fundadores do materialismo dialético histórico nos fazem ver que os homens trabalhadores só podem ser verdadeiramente livres na demolição do Estado capitalista – a coluna mestra da formação social e econômica capitalista e obstáculo histórico real à humanização plena dos homens e mulheres.

Karl Marx encontra-se mais do que dantes envolvido nas polêmicas do nosso tempo; ele permanece no centro do recontro político-filosófico já mencionado no qual estão enredados largas fileiras dos movimentos populares e dos partidos de esquerda; para além da substancial pobreza dos “exegetas” e simplificadores tradicionais; desnuda a problemática da humanização do homem com profundidade.

Os sonambúlicos, os adormecidos, os que desfrutam o vazio do viver parados à porta da “Caverna” e os que se entregam ao conformismo da sociedade e da cultura burguesas são incapazes de captar a atualidade e o vigor da crítica de Marx.



[1] Texto estruturado para o I Seminário Nacional Corpo e Cultura, realizado na Universidade Federal do Espírito Santo no período de 07 a 10 de junho de 2007.

[2] Professor Doutor Adjunto do Departamento de Desportos do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Espírito Santo.

[3] Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público, A Questão Judáica, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Introdução, Manuscritos Econômicos - Filosóficos, A Sagrada Família, A Ideologia Alemã, Teses sobre Feuerbach, Miséria da Filosofia, Manifesto do Partido Comunista, Trabalho Assalariado e Capital, As Lutas de Classe em França de 1848 a 1850, O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, Introdução à Crítica da Economia Política, Princípios Fundamentais da Crítica da Economia Política (Grundrisse), Crítica da Economia Política, História das Teorias Econômicas, Salário, Preço e Lucro, O Capital, A Guerra Civil em França, Crítica do Programa de Gotha, Glosas Marginais ao Manual de Economia Política de Adolph Wagner.

[4] Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Introdução (1843), A Questão Judáica (1845), A Sagrada Família (1847), Miséria da Filosofia e Manifesto do Partido Comunista (1848), Trabalho Assalariado e Capital (1849), As Lutas de Classe em França de 1848 a 1850 (1850), O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte (1852), Crítica da Economia Política (1859), O Capital I e A Guerra Civil em França (1871).

[5] O Capital II (1885), Teses sobre Feuerbach (1888), Crítica do Programa de Gotha (1891), O Capital III (1894), e Salário, Preço e Lucro (1898).

[6] Introdução à Crítica da Economia Política (1903), Teorias sobre a Mais-Valia (1905-1910), Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público (1903), Manuscritos Econômicos - Filosóficos (1932), A Ideologia Alemã (1932), Glosas Marginais ao Manual de Economia Política de Adolph Wagner (1932) e Princípios Fundamentais da Crítica da Economia Política (1939-1942).

[7] CERRONI, U. Teoria política e socialismo. Lisboa, Publicações Europa - América, 1976.

[8] LENIN, V.I. Materialismo e empiriocriticismo. São Paulo, Mandacaru, 1990.

[9] Id. ibid.

[10] LENIN, V. I. Karl Marx. Obras Escolhidas – 1. Lisboa, Moscou, Edições Progresso, 1977. p. 4-27

[11] VRANICKI, P. Historia del marxismo (I). Salamanca, Edicciones Sígueme, 1977. p. 67

[12] MARX, K. Manuscritos econômicos - filosóficos. Lisboa, Edições 70, 1989. p. 197

[13] Id. ibid.

[14] Id. ibid., p. 197

[15] LEFÉBVRE, H. A cidade capital. Rio de Janeiro, DP&A Editora, 1999.

[16] MARX, 1989, p. 198

[17] Id. ibid., p. 199

[18] Id. ibid., p. 200

[19] Id. ibid.

[20] Gozo, usufruto (Genuss), conforme nota de rodapé 3, dos Manuscritos, p. 194

[21] Id. ibid., p. 195

[22] Id. ibid., p. 214-215

[23] MARX, K. Teses sobre Feuerbach. MARX, K. y ENGELS, F. Obras Escogidas (I). Moscú, Editorial Progreso, 1981. p. 7

[24] Id. ibid., p. 8

[25] Id. ibid.

[26] Id. ibid., p. 9

[27] Id. ibid. p. 8-9

[28] Id. ibid., p. 9

[29] Id. Ibid., p. 11

[30] MARX, K. e ENGELS, F. A ideologia alemã - crítica da filosofia alemã mais recente. Lisboa, Editora Presença, s.d. p. 322

[31] MARX, K. e ENGELS, F. A ideologia alemã - Feuerbach. São Paulo, Editora Ciências Humanas, 1979. p. 26

[32] Id. ibid., p. 27

[33] Id. Ibid., p. 27-28

[34] Id. ibid., p. 36

[35] Noutra tradução, a variante inicial dessa premissa está posta assim: “Os homens são os produtores de suas representações, idéias, etc., precisamente os homens, condicionados pelo modo de produção de sua vida material, por seu trato material e pelo seu contínuo desenvolvimento na estrutura social e política” (MARX, K. y ENGELS, F. Feuerbach. Oposición entre las concepciones materialistas e idealistas. Obras Escogidas - I, Moscú, Editorial Progreso, 1891. p. 21).

[36] Id. ibid., p. 37-38

[37] LEFÉBVRE, H. O marxismo. São Paulo, Difel, 1979. p. 98

[38] LÖWY, M. Método dialético e teoria política. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1975. p. 20

[39] LUXEMBURG, R. Scritti politici. Roma, Ed. Riuniti, 1967. p. 167

[40] LÖWY, ibid.

[41] MARX, K. Misère de la philosophie. Paris, Editións Sociales, 1948. p. 100; Miséria da filosofia. Moscou, Edições Progresso, 1979. p. 102

[42] MARX, K. O capital, 1(1). São Paulo, Editora Difel, 1982. p. 12

[43] Id. ibid., p.12

[44] Id. ibid., p. 38

[45] Id. ibid., p. 39

[46] Id. ibid., p. 41, 43

[47] Id. ibid., p. 50

[48] Id. ibid., p. 109

[49] Id. ibid., p. 45

[50] Id. ibid., p. 78

[51] Id. ibid., p. 80

[52] Id. ibid., p. 86

[53] Id. ibid.

[54] Id. ibid.

[55] Id. ibid., p. 89

[56] Id. ibid., p. 93

[57] SEVE, L. Que es filosofia? GARAUDY, Roger y otros Lecciones de filosofia marxista. Mexico, Grijalbo, 1966. p. 52, 56

[58] BOITO JUNIOR, A. e Outros Manifesto. Revista Crítica Marxista, vol. 1, nº 1. São Paulo, Brasiliense, 1994.

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